Incêndio florestal de grandes proporções ameaçou habitações nas freguesias de Eja e Rans, obrigando a evacuações preventivas e ao corte de várias estradas municipais; bombeiros controlaram as chamas ao fim de 14 horas de combate intenso, mas feridas no território e nas comunidades permanecem abertas.
O concelho de Penafiel viveu esta terça-feira (27) e madrugada de quarta-feira (28) um dos dias mais negros da sua história recente. Um incêndio florestal de proporções alarmantes, alimentado por ventos fortes e temperaturas que ultrapassaram os 38 graus, avançou rapidamente sobre as freguesias de Eja e Rans, deixando um rasto de destruição na mata e colocando dezenas de habitações em risco imediato. Graças à ação coordenada de mais de 160 bombeiros, apoiados por meios aéreos, as chamas não atingiram as casas, mas os moradores viveram horas de pânico, com labaredas a poucos metros das suas portas, fumo espesso a encobrir o sol e a certeza de que a tragédia poderia ter sido muito maior.
O incêndio teve início pelas 14h30 de terça-feira, numa zona de mato denso na encosta da Serra de Eja, por razões ainda sob investigação. Em poucos minutos, o vento norte empurrou as chamas em direção ao vale, onde se concentram as habitações e as explorações agrícolas. O alerta foi dado por um morador que avistou a primeira coluna de fumo, e a partir daí o cenário degradou-se rapidamente.
"Foi um dia de terror. O fogo vinha da serra como um rio de lava. Em dez minutos, o céu ficou preto, o cheiro a queimado era insuportável e a temperatura subiu tanto que parecia que estávamos dentro de um forno. Eu olhava para a minha casa, para as fotografias dos meus filhos na parede, e pensava: 'vai tudo arder'. Só nos restou rezar."— Maria do Céu Ribeiro, 67 anos, moradora de Eja
As operações de combate: uma corrida contra o tempo
O Comando Sub-regional de Emergência e Proteção Civil do Tâmega e Sousa ativou o plano distrital de combate a incêndios rurais assim que o fogo foi classificado como "incêndio de 3.º nível" — o mais grave previsto na escala operacional.
O fogo atingiu o seu pico de intensidade pelas 18h, quando as chamas avançaram sobre o lugar de Quintela, em Rans, a escassos 100 metros do primeiro aglomerado habitacional. Foi nesse momento que a GNR procedeu a evacuações preventivas de 23 famílias — cerca de 60 pessoas, incluindo idosos e crianças — que foram acolhidas no centro paroquial de Eja e no pavilhão desportivo de Penafiel.
"Foi uma decisão difícil, mas necessária. O fogo estava a saltar de povoamento em povoamento, impulsionado pelo vento. Tínhamos de garantir que não havia vítimas mortais. As casas podem reconstruir-se; vidas, não. A prioridade foi sempre a segurança das pessoas."— Comandante Joaquim Santos, coordenador distrital da Proteção Civil
O combate aéreo foi decisivo para travar o avanço das chamas nas zonas mais críticas. Os aviões Canadair realizaram 24 descargas de água ao longo da tarde, enquanto os helicópteros operaram com baldes de 5.000 litros em zonas de difícil acesso para os meios terrestres.
O incêndio foi dado como "em fase de rescaldo" às 4h30 da madrugada de quarta-feira, após 14 horas ininterruptas de combate. No entanto, as equipas permanecem no terreno para vigilância e prevenção de reativações, já que o solo continua extremamente seco e a previsão é de vento forte para os próximos dias.
Os estragos: paisagem devastada, vidas inteiras em risco
O balanço preliminar dos estragos, ainda em contagem, aponta para:
Cerca de 450 hectares de área florestal e mato ardidos — o equivalente a 450 campos de futebol.
Várias habitações com danos exteriores — fachadas queimadas, toldos e algerozes derretidos, e em alguns casos janelas partidas pelo calor extremo, mas nenhuma casa totalmente destruída.
Duas explorações agrícolas severamente afetadas — uma delas com perda total de cerca de 200 oliveiras e um pomar de fruta, representando um prejuízo estimado em mais de 50 mil euros.
Infraestruturas danificadas — postes de eletricidade derrubados, deixando 32 fogos sem luz durante várias horas, e uma estrada municipal (EN 106) cortada durante 8 horas.
Para os moradores, no entanto, o maior prejuízo não é material. É o trauma de terem visto o fogo a poucos metros de tudo o que construíram.
"Eu nunca tinha visto nada assim. O fogo era tão alto como as árvores. A minha mulher entrou em pânico, os meus netos choravam. Pegámos nos documentos, nos remédios e fugimos. Quando voltámos, a terra estava preta, o quintal cheio de cinzas e a casa cheirava a fumo. Vamos demorar meses a sentir-nos seguros outra vez."— João Mota, 54 anos, agricultor em Rans
O cenário nacional: Penafiel é o reflexo de um país em chamas
O incêndio de Penafiel não é um caso isolado. O mês de julho de 2026 tem sido particularmente severo em termos de incêndios florestais em Portugal, com a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) a registar, até ao momento:
Especialistas apontam a combinação de três fatores para este agravamento:
A seca extrema que atinge o Norte e Centro do país desde o início do ano, com níveis de humidade do solo abaixo do normal histórico.
As temperaturas elevadas, com várias regiões a ultrapassarem os 40 graus durante várias semanas consecutivas.
A falta de gestão florestal e a descontinuidade do território, com vastas áreas de mato abandonado que funcionam como combustível para as chamas.
"O que vimos em Penafiel é o que vamos ver cada vez mais vezes se não houver uma mudança estrutural na forma como gerimos o território. Não se pode deixar o mato crescer, não se pode ter florestas abandonadas, não se pode ignorar o ordenamento florestal. O fogo não perdoa."— José Miguel Cardoso, investigador do Centro de Estudos Florestais do Instituto Superior de Agronomia
As histórias que as cinzas não apagaram
Para além dos números e dos relatórios, há histórias de solidariedade e de resiliência que marcaram estes dias de angústia em Penafiel.
Uma delas é a de D. Rosa Ferreira, 72 anos, que se recusou a sair de casa mesmo quando a GNR lhe pediu que evacuasse. Em vez disso, muniu-se de uma mangueira e, ajudada pelo neto de 16 anos, regou as paredes da habitação e o telhado durante horas, enquanto as chamas estavam a menos de 30 metros.
"Aquela casa é a minha vida. Ali vivi 50 anos, ali criei os meus filhos, ali o meu marido morreu. Se tivesse que arder, eu ardia com ela. Mas não ardeu. O meu neto é um herói. Não largou a mangueira a noite toda."— Rosa Ferreira, moradora de Eja
Outra história que ganhou eco nas redes sociais foi a de um grupo de vizinhos que improvisou uma brigada de combate, com pás, enxadas e baldes de água, para proteger o pequeno bosque comunitário que serve de lazer às crianças da aldeia de Sanguinhedo.
"Aquele bosque é o nosso jardim. As crianças brincam ali, as famílias fazem piqueniques. Quando vimos o fogo a aproximar-se, ninguém pensou duas vezes. Fomos todos. Com pás e baldes, abrimos uma faixa de contenção de 50 metros. Demos tempo para os bombeiros chegarem. Foi o que salvou o bosque."— Paulo Mendes, 41 anos, um dos moradores que participou na defesa do bosque
Prevenção e futuro: o que precisa mudar
O incêndio de Penafiel reacendeu o debate sobre a prevenção de incêndios em Portugal. Várias associações ambientalistas e de defesa do território apontam a necessidade de medidas urgentes:
A Câmara Municipal de Penafiel já anunciou que vai solicitar ao Governo a classificação do concelho como "área crítica de risco de incêndio", o que permitirá o acesso a fundos comunitários para ações de prevenção e reflorestação.
"Não podemos esperar que o fogo chegue para depois agir. É preciso agir antes. Penafiel, como muitos outros concelhos do Norte, está a pagar o preço de décadas de abandono florestal. Vamos exigir ao Governo que nos dê os meios para fazer o que devíamos ter feito há 20 anos."— António Sousa, presidente da Câmara Municipal de Penafiel
O que acontece agora?
Nas próximas horas e dias, as equipas da Proteção Civil e dos bombeiros vão manter-se em vigilância ativa nas zonas ardidas, especialmente nas noites de vento, quando o perigo de reativação é maior.
O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) prevê que as temperaturas elevadas se mantenham nos próximos dias, com a possibilidade de novos episódios de calor intenso. O país continua em alerta laranja em vários distritos, incluindo Porto, Braga, Viana do Castelo, Vila Real e Bragança.
O Ministério do Ambiente já anunciou que vai declarar situação de calamidade no concelho de Penafiel, o que permitirá o acesso a apoios de emergência para as famílias e agricultores afetados, bem como a isenção de algumas taxas municipais.
Para D. Maria do Céu, a esperança é que a solidariedade não se esgote nas primeiras horas:
"Não quero que se lembrem de nós só enquanto as cinzas estão quentes. Quero que se lembrem de nós quando for preciso plantar de novo, quando for preciso limpar, quando for preciso recuperar. A terra é nossa, a vida é nossa. Com ajuda, a gente renasce."