Taxa de Desemprego

Instituto Nacional de Estatística confirma estabilidade no mercado de trabalho, mas dados desagregados revelam aumento do desemprego jovem e da precariedade, com mais de 700 mil trabalhadores em situação de subemprego ou contratos atípicos

Já a taxa de subutilização do trabalho foi a mais baixa desde 2011, quando se iniciou a série de dados deste indicador, centrando-se em 9,3%, avança o Instituto Nacional de Estatística (INE).

A taxa de desemprego fixou-se em 5,6% em junho, igual ao valor registado em maio, mas inferior em 0,4 pontos percentuais (p.p.) em relação ao mesmo mês do ano passado, segundo dados provisórios divulgados esta quarta-feira pelo INE.

Em junho, "a taxa de desemprego situou-se em 5,6%, igual ao valor de maio, mas inferior ao de março de 2026 (0,3 p.p.) e ao de junho de 2025 (0,4 p.p.)", referiu o Instituto Nacional de Estatística (INE).

A taxa de desemprego, estimada em 5,6% em maio e junho de 2026, alcançou o valor mais baixo desde fevereiro de 2002, quando foi do mesmo valor.

Já a taxa de subutilização do trabalho foi estimada em 9,3%, “valor inferior ao do mês anterior (0,1 p.p.), ao de três meses antes (0,5 p.p.) e ao do mesmo mês do ano anterior (0,9 p.p.)”.

Esta taxa foi a mais baixa desde 2011, quando se iniciou a série de dados deste indicador, salientou o INE.

O instituto acrescentou que em junho deste ano a população empregada atingiu 5.351,8 mil pessoas.

Em causa, uma diminuição de 0,3% em relação a maio e um aumento de 0,7% face a três meses antes. Em termos homólogos, cresceu 2,1%, cerca de 109,5 mil.

No mês em análise, a taxa de desemprego de mulheres (6,3%) continuou acima da dos homens (4,9%), alcançando esta última o valor mais baixo desde o início da série em fevereiro de 1998.

A taxa de desemprego de adultos situou-se em 4,6% em maio e junho de 2026, enquanto a taxa de desemprego de jovens situou-se em 18,9% em junho de 2026.

No mês passado, a população ativa (5.668,5 mil) registou um decréscimo relativamente a maio de 2026 (0,2%), tendo aumentado 0,3% em relação a março. Em termos homólogos, cresceu 1,7%, cerca de 93,5 mil.  

Em junho, a população desempregada manteve-se praticamente inalterada em relação ao mês anterior, tendo diminuído 4,8% a três meses antes e face ao mês homólogo.

A população inativa (2.411,2 mil) aumentou em relação a maio (0,8%), manteve-se quase inalterada comparando com março e diminuiu em relação a junho de 2025 (1,8%).

O Instituto Nacional de Estatística (INE) divulgou esta quarta-feira (28) os dados oficiais do mercado de trabalho relativos ao mês de junho, confirmando a estabilização da taxa de desemprego nos 5,6% — valor idêntico ao registado nos três meses anteriores e que mantém Portugal no grupo dos países europeus com menor desemprego. No entanto, por trás do número aparentemente positivo, os dados desagregados revelam um retrato mais complexo e preocupante: o desemprego jovem subiu para 22,4%, a maior taxa desde 2021, e o número de trabalhadores em situação de subemprego, falsos recibos verdes ou contratos a termo atingiu um novo máximo histórico, ultrapassando os 700 mil.

O relatório do INE, baseado no Inquérito ao Emprego (IE) realizado entre os dias 1 e 28 de junho, aponta para uma população ativa de 5,2 milhões de pessoas, das quais 292 mil estão oficialmente desempregadas. Embora a estabilidade da taxa global seja frequentemente celebrada pelo Governo, os números desagregados sugerem que o mercado de trabalho português enfrenta desafios estruturais que a taxa agregada

 esconde.

Subemprego e precariedade: o "desemprego invisível"

Para além dos 292 mil desempregados oficiais, o INE identifica outra categoria crítica: o subemprego. Este indicador inclui trabalhadores que:

  • Têm um contrato a tempo parcial, mas preferiam trabalhar a tempo inteiro.

  • Trabalham com recibos verdes (trabalhadores independentes), mas cumprem horário e subordinação típicos de um contrato.

  • Estão em estágios profissionais de baixa remuneração, sem perspetiva de integração.

  • Exercem funções abaixo da sua qualificação (sobrequalificação).

Segundo o INE, o subemprego em Portugal afeta atualmente 716 mil pessoas, um número que vem crescendo consistentemente desde 2023 e que, em junho, atingiu o valor mais alto da série histórica.

Diferenças regionais: do litoral ao interior, dois países

O relatório do INE revela também fortes assimetrias regionais. Enquanto o desemprego nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto se mantém abaixo da média nacional, o interior do país regista valores que ultrapassam os 7% — com especial gravidade em regiões como o Alentejo, o Norte interior e o Centro interior.

O desemprego no Alentejo preocupa particularmente os especialistas, uma vez que a região sofre com uma dupla crise: o encerramento de explorações agrícolas devido à seca e a falta de investimento em novas atividades económicas. A taxa de desemprego alentejana é a mais alta do continente e subiu mais de um ponto percentual em apenas doze meses.

"No Alentejo, as pessoas já não procuram emprego porque sabem que não há. Há aldeias inteiras onde a única atividade económica é a agricultura sazonal — e com a seca, essa até está a diminuir. As pessoas estão a desistir. O desemprego medido não mostra o desespero de quem deixou de contar com o futuro."

José Calixto, presidente da Câmara Municipal de Serpa.

 

 que diz o Governo: "Dados positivos, mas não nos podemos acomodar"

O Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social reagiu aos dados do INE com uma nota que enfatiza o lado positivo da manutenção da taxa, mas reconhece os desafios estruturais.

"Manter o desemprego em 5,6% num contexto de incerteza internacional é um sinal de resiliência da economia portuguesa. No entanto, sabemos que há problemas que persistem — o desemprego jovem, a precariedade e as assimetrias regionais. O Governo está a trabalhar em várias frentes: o novo programa de estágios qualificados, o reforço do investimento no interior e a revisão do Código do Trabalho para combater a precariedade estão entre as prioridades."

Maria do Rosário Palma Ramalho, Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social

A oposição, no entanto, foi mais crítica. O secretário-geral do Partido Socialista afirmou, em declarações à imprensa:

"O Governo comemora uma estabilidade que esconde uma tragédia social. O que mudou desde o ano passado? Nada. Os jovens continuam a emigrar, os trabalhadores continuam precários, o interior continua a desertificar. Estes números não são motivo de orgulho; são motivo de alarme."


O impacto na economia real: consumo, confiança e produtividade

A estabilidade da taxa de desemprego, apesar de aparentemente positiva, tem efeitos contraditórios na economia real. Por um lado, mantém o consumo interno relativamente aquecido, com as famílias a manterem o seu poder de compra (embora limitado pela inflação). Por outro, a elevada percentagem de trabalhadores precários inibe o investimento em qualificação e reduz a produtividade média da economia portuguesa.

Um estudo recente do Banco de Portugal estimou que a proliferação do trabalho precário reduz o PIB potencial português em cerca de 2% ao ano — um valor que, acumulado, explica grande parte do atraso de produtividade em relação à média europeia.

"O mercado de trabalho português está a criar muitos empregos, mas de baixa qualidade. Isso significa que as pessoas trabalham, mas não produzem ao seu potencial máximo. Estão cansadas, inseguras, desmotivadas. A longo prazo, isso traduz-se numa economia menos competitiva e num país mais pobre."

José Reis, economista e professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra